
Eu quero uma carona para o marco zero dos desencontros. O QG dos sentimentos vazios, errôneos, intensos, preguiçosos, medrosos, confusos. De onde eles sincronizadamente se varrem como num ritual, possivelmente até em ordem alfabética. Dizem as más línguas que eles rondam encontros ao redor de fondues perto de lareiras, ao redor de copos de whiskys em boates, de vinhos em restaurantes caros, para no final de camas baratas, de olhares comprometidos, não estarem de fato em lugar nenhum. As paixões não param, o tempo corre, e você passa voando pelos dois. Antes, na época dos fins de tarde cheios de brisa, conversas agradáveis e nenhum medo de ser feliz, eles cortavam caminho pela minha rua, hoje moro em apartamento, mas lembro que brincava na porta de casa quando vi um deles passar pela primeira vez. Um sentimento limpinho, bem calçado, com os cabelos penteados, sedosos e um olhar seco e perdido, carregava um par de sapatilhas, não correu, andou olhando pro chão. Eu pulava elástico e parei para ver o amor passar. O amor não cantava, dançava balé, mas esperei uma serenata que nunca existiría, em todas as tardes que se seguiram, com aquele elástico meio
imundiçado na mão direita, com aquele coração meio
imundiçado no meu peito esquerdo. Aos olhos do mundo e aos meus também - por amar uma bailarina. - Certa vez, na brincadeirinha intencional das frutas, com o olho não totalmente coberto, fiz cair sobre ela à salada mista, logicamente não deu certo, mesmo que desse, nem eu sabía de fato se queria realmente aquilo. Meu impulso foi o mais perto que cheguei do amor que morava no final da minha rua, e passou a dormir no meu pensamento confuso depois daquele dia, em todas as noites de que me lembro. Passava também pela minha janela quase toda manhã. Hoje não tenho mais medo desse coração que não sabia se era meu, nem se era de fato como o elástico. Não olho mais dentro da barca de sushi, pra disfarçar o olhar na mesa ao lado, nem me importo com a vulnerabilidade de festas noturnas, nem com a maldade em olhares de mentes pequenas que tentam devorar a nossa paz interior. Não paro de beber whisky porque é quando encontro um sotaque Francês ao longe e adoro ouvir música Francesa, não sei explicar, mais me sinto tão leve quanto a docilidade do som que ecôa na pronúncia. Ainda penso em comprar um radinho de pilha e sentar na janela pra ver o próximo amor subir a minha rua, ver os sentimentos sofridos que pegam atalhos, vendo tudo tomar seu lugar depois que o medo e a ignorância passar.