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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Enlouquecendo mais do que deveria


A solidão chega e eu tento me acomodar melhor no sofá. Me cubro dos pés a cabeça na esperança que a minha capa invisível me proteja de mim mesma, de você, do mundo, dos telefonemas, das atualizações na internet, das tuas fotos. Eu quero você pra mim, mas preciso de espaço pra não depender só do teu amor, quero tuas frases e gestos românticos, mas morro de medo de te ligar, porque não vou saber o que fazer se não ouvir depois que já quero tanto. Mas se eu ouvir de fato, vou ter ganho você e querer bater a cabeça na parede, porque vou te amar desesperadamente e vai doer pra caramba. A porra do medo do futuro vai doer no meu corpo inteiro. Vou beijar o travesseiro enquanto você não chega, e vou querer me ter de volta porque descubro que já estou completamente sua e não quero ser sua, porque significará que não sou mais minha, e eu sou o meu único porto realmente seguro. Eu não vou saber o que você pretende ao me amar, e nem sei se eu vou te amar pra sempre, e caso eu não te ame pra sempre, perdi um tempo filho da mãe beijando paredes com saudades de alguém que não era nem o amor da minha vida. Afinal como eu vou saber que você não vai mudar, me decepcionar. E como eu vou saber se é isso sem me deixar completamente vulnerável pra me estrepar inteira e ser esmagada por um trator de sentimentos. Se essa capa funcionar você não vai me encontrar, nem meus CDs escondidos da Bethânia, que eu me recuso a ouvir agora só pra não pensar melhor em você a cada palavra “malditamente” enfeitiçada que vai me fazer te querer mais e ter mais medo de não te ter. Eu que não queria ficar ocioso, falhar, nem chorar, de repente me vejo acordando cedo pra tomar café. Ainda acho acordar cedo uma merda. Mas quero ter mais tempo pra pensar em você e não quero desperdiçar um minuto dos meus sorrisos insistentes, nem minha asfixia de músicas imoralmente melosas que a um tempinho atrás passavam despercebidas por mim. Ainda acho que romantizar um “me passa o sal”, ou um “oi, como você está?” ou mesmo uma ligação inesperada, é desnecessário demais, mas de repente aqui estou eu deitada no sofá embrulhada na minha capa protetora do mundo certinho, da grama sempre mais verde do vizinho, do vento que não desregula, do pai que se agacha pra abraçar o filho na entrada de casa, do carro novo do seu amigo, dos novos cortes de cabelo da moda, daquele cheiro bom de quem acabou de sair do banho, ouvindo Norah Jones, tentando ser o meu próprio mundo dentro de você. O tempo gasto fingindo que os CDs melosos não estavam ali, e que se estavam por alguma razão eu era mais forte que qualquer sentimento incontrolável, pra que? Parece mesmo que não tem como fugir, você tenta mais só o que pode fazer é ouvir as porras das músicas melosas. Eu mato o filho da puta que ganha dinheiro incentivando o suicídio emocional alheio. Ainda to deitada no sofá, ainda sorrio bobo, ainda entro em um transe oriental com as benditas, ainda romantizo coisas aparentemente sem sentido. Faço planos e espero, espero levar um tombo e cair de cara na sarjeta, ou então que você me tire debaixo da minha capa e me traga de volta ao mundo suicida, totalmente admissível quando é ao seu lado, e me sirva um chocolate quentinho na varanda fria no clarear da manhã enquanto planeja me amar para sempre.

2 comentários:

STOPFOOD! disse...

Já passei por isso,saí mais forte..talvez, enfim estou viva.Amei o texto

Dan disse...

Te imaginei com uma capinha vermelha encolhida no sofá da tua sala e só com os olhos [esbugalhados] de fora. Te vi como uma criança escondida atrás da cortina esperando pra saber se o 'bicho' tá lá fora ou junto a vc na mesma cortina.
A maior dúvida que existe é a do futuro, o maior medo é o depois e o depois já é o agora... se o agora já passou pq esperar tanto por algo que escorre entre o fino bocal do funil de felicidades e esbravejantes aventuras [dolorosas, divertidas, evolutivas].
Então, vai se despindo dessa capa e corre atrás desse 'bicho'. Ainda pode ser divertido - mesmo que assustador.
O importante é não perder [mais] tempo.