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terça-feira, 19 de abril de 2011

Doces ou travessuras


(foto-autor desconhecido)


Se você amasse como corria com o pé enlameada pela rua, tentando tocar e paralisar alguém. Se você sentisse a dor com a disciplina de quando sabia que já era hora de voltar pra casa. Se você planejasse como se não precisasse, apenas pelo simples e leve fato de querer. Se você nunca tivesse deixado de acreditar que cavalos de fogo viriam, que bolas quadradas chegariam num trenó. Que você não precisaria lutar, nem se cansar, o universo inteiro estava no seu quintal e tinha tudo o que você precisava para ser feliz. E se quando você voltasse ele estivesse daquele mesmo enorme tamanho de anos atrás. Se cada aprendizado, cada dor, cada experiência conseguisse nos mostrar nos mínimos detalhes como é importante guardar a salvo o menino que dorme no nosso peito e levanta para brincar de vez em quando. Se o nosso coração soubesse quantos “Se’s” seriam necessários para formar uma certeza, não precisaríamos ter tanto medo dos riscos, das palavras, dos gestos, dos passados. Se falar tudo sem ter medo fosse saber viver, por serem apenas palavras, e são apenas lágrimas, e são apenas medos, e são apenas tudo um grande parque de diversão e na pior das hipóteses você andaria mais de uma vez naquele trem fantasma e você não teria medo de não chegar ao fim rindo de tudo. Que essa quantidade de doces que você tem nas mãos agora, seriam para presentear aquele, aquela, qualquer um, como o mais singelo dos gestos simples, porque era de coração,mesmo que só tivesse te custado algumas moedinhas, mas ninguém ligava pra isso, e ninguém chorava a não ser por mais doce. E esperando que o mundo fosse um grande quintal encantado e que ser criança não fosse uma fase, mas uma solução, uma saída.

segunda-feira, 28 de março de 2011

A nova cor


Ela me seguiu.A colombina, a bailarina, a garota que gostava de coelhos e cartolas. Ela dobrou a mesma rua, ela entrou no elevador, ela segurava seu yorkshire na mão esquerda. Eu falava ao telefone e pedi um pouco de silêncio a minha hiperatividade. Ela me olhou até me calar, justo ela, justo eu. Queria descer mais alguns andares além do térreo para ver até onde aquilo ia dar e continuar a fingir que não via. Sai com pressa de lugar algum, de um teto, de um pouco de asma, ela encheu meu pulmão de ar. Foi tão rápido que eu não percebi que era pra mim, dês de o começo. Eu espero.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Só me escuta


Sabe como ela chegou, respeitáveis leitores?! Ela não chegou, ela só esteve lá no canto dela. Só escuta. Eu sei que vai parecer loucura, mas juro que eu não queria. Que loucura o que, é claro que eu queria, queria e pronto, quero, não decidi e não controlo. Se tem uma coisa que detesto são meias palavras. Se for pra meter os pés pelas mãos que seja com todas as palavras a que tenho direito. Agora só o que falta é você me achar desnorteada, inconstante, descomedido. Então pegue a senha se for começar. Deixa eu tentar não andar sempre dois passos depois de mim, e quatro depois de quem interessa. Não senta não, fica ai, quero parecer menor, não quero correr o risco de desmoronar. Além do mais, acho que vou ficar sentada aqui mesmo nessa grama verde. Não tem erro, pode crer. É seguro e é verde. Parece meio irônico, ser justo verde, a cor da esperança. Só dois goles e pode esperar que vou temer derramar a mais inútil emoção pelo meu rosto, do canto do olho à aquele canto que se esconde no canto do meu pescoço, e logo em seguida tremer as cordas vocais tanto que nem eu me entenda. Espera, não me abrace agora. Sei que é exagero, por isso não espere nada menos que um exagero constrangedor vindo de mim. Suas surpresas me inquietam, penso em todas, de todas as formas possíveis e você pode simplesmente não estar presente quando eu falar. Não ousei tentar pensar no que dizer no caminho, ensaiar ou decorar. Não ousei fingir que você estava do outro lado do espelho. Não seria justo comigo nem com você, não poder deixar o meu coração falar da sua forma mais inédita e original possível. Fica comigo! Você não entende. Você é o meu pior pesadelo em forma de ironia da vida. Você vai entender tudo, me escuta. Só senta, só fica segura, seja somente você, a porcelana, tão fotografia de fim de tarde, sempre se emoldurando, tão flores e chá na varanda, tão mulher, que uma só já te basta, você. Senta aqui, esquece o que te disseram. Só levanta depois que alinharmos nossas épocas. Não sei de qual você veio. Mas relaxa, esquece que eu to agindo como uma louca, faz de conta que não faço idéia de onde é a sua praia, esquece todas as praias e bandeiras, mergulha e faz essa tarde valer à pena, nem que seja só por essa tarde.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Eu já esperava por você


Vamos, chega logo, acaba com essa tortura. Chega pra que eu possa dizer eu já sabia que um dia eu iria te conhecer. Acaba com a minha paz. Vem com a entrada pra um novo mundo, novas aventuras. Fecha os olhos e não fala nada até que eu termine de formar toda a sua personalidade, caráter, prato preferido e histórias de vida na minha cabeça,conforme a minha imaginação mandar. Me dá um pé na bunda, mas espera eu pensar no nome dos nossos filhos primeiro. Me espera te imaginar ao meu lado criando eles e sentir que estou como mulher cumprindo o meu papel inevitável de idealista...ai sim. Me livra de toda cheiro de lavanda, porque com certeza eu vou estar cheirando a lavanda, eu vou estar com um cabelo respeitável e um sorriso de miss. Por isso eu vou te implorar, chega logo e me da um banho de angústia e lágrimas limpas e novas, novas em folha. Nunca mais as lágrimas guardadas e reutilizadas. E eu vou te idolatrar por isso. Me tira toda a culpa ou me culpa mais ainda pelos amores que eu não correspondi. Me ensina uma outra forma de querer. Me faz ter novos planos, sonhos e projetos. Me ensina que eu posso, que eu sempre posso e que não depende de você ou de outro coração qualquer, mas de mim e só de mim.Cuspa para o lado, dê de ombros e me deixe descobrir de novo o meu caminho, minha capacidade, meu sorriso livre. Leva a minha moral, meu orgulho, leva a minha vergonha, minhas calcinhas velhas. Compra uma passagem para a frança e me diga “au revoir" da forma mais brega que você puder e conseguir transformar nossa vida intensa e dramática. Não olhe para trás, tenha um pouco mais de fibra. Nesse dia eu vou desabafar, vou dar uma festa, vou convidar quem já não fazia diferença, e todos que sempre fizeram. Vou levar seu sorriso debochado da estante para o cesto embaixo da pia e me deparar com estranhos alí na minha cozinha com seus copos de bebida, cada um tentando te afogar do seu próprio jeito, tentando te esquecer em risadas embriagadas, assim como eu, tentando esquecer as tuas milhares de faces. Vou beber até cair, sentar e ajoelhar. Vou paquerar desaforadamente alguém que finge me amar, que engana a si mesmo, porque é você que ela ama, porque todos te amam. você esta em todos os lugares, você sabia disso? Se há alguém que ainda não sabe do que estou falando, é porque não te conheçe, ela ainda vai um dia encontrar você. Eu um dia vou encontrar você. Você é um ítem obrigatório na experiência de vida de alguém. se alguém ainda não passou por você, não sabe ainda o que é existir, não está completo. Vou chorar descaradamente na porta do banheiro enquanto alguém não sai. Enquanto você não sai, não sai da minha vida. Entra logo, pra que eu possa prosseguir.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tempo da perfeição



Depois de um dia cansativo eu abro a porta do meu quarto e uma rosa vermelha em cima do meu travesseiro me faz achar que você esta no quarto ao lado. Eu corro, eu rodo a casa em passos largos e ansiosos e você não esta em canto nenhum, e não me pergunte o porque, mas eu sei que foi você, tenho certeza. A minha respiração ofegante vai amenizando, silênciando, me lembrando da baita fome que dá depois do trabalho no finalzinho da noite, me lembrando que eu não posso recair e tenho que segurar o choro. "Melhor assim". Então, respiro aliviada. Entro novamente no quarto e o teu notebook esta em cima da minha cama e me faz achar que você esteve por aqui, não sei qual hora, não sei o que eu fazia no momento, não sei porque. A toalha que você esqueceu pra me lembrar que você é parte de mim, de repente esta molhada, me relembrando que o vermezinho que se alimenta do nosso amor foi a parte que me coube da partilha. Eu te mando embora e você vai, e sai resmungando e me culpando de todas as desgraças do mundo, sendo que minha única e verdadeira culpa é não saber te amar. É não esquecer que não da certo. É não saber me controlar. É repetir os passos insanos e afundar o pé. É não saber se te beijo ou não, enquanto você me dá banho como se fosse uma espécie de redenção a todos os banhos com gelo, com sal e com aquele climão pra te tirar da embriaguez. Deixa a minha caixa de mensagens respirar. Eu sou apenas a lata do lixo e o vermezinho roedor não te faz companhia, não esta ao teu lado entre a respiração cansada e o travesseiro cheiroso. Vai, vai logo, mas deixa a flor dentro do copo pra eu olhar e lembrar que você existe. Que não há só vulgaridade nesse mundo. Que ainda existem mulheres de caráter. Ainda existem mulheres de coração puro e honesto, caso um dia eu queira sair de novo na rua. Quem sabe um dia nos encontremos naquele tão aguardado e falado tempo da perfeição. Perdoa os buracos que faço e refaço na tua cicatriz. E que o amor cuide de nós... por onde formos.

sábado, 20 de novembro de 2010

Sem neurose por favor


Me sinto feliz por não ser uma daquelas mulheres neuróticas que ficam do lado do telefone e que imaginam o celular vibrar de 5 em 5 minutos e olham só pra conferir. Que não esperam um pedido de casamento no segundo encontro. Que não se imaginam não conseguindo mais viver sem a pessoa no terceiro encontro. Mas queria tanto te ver agora. Queria que você estivesse mais perto ,tão perto que eu não me encontrasse. Queria te desvendar num bom vinho a meia luz embaixo da lua. Queria esbarrar meu pé no teu essa noite, mas acho que só vou esbarrar nas minhas mãos amarradas.Vou ver aquela tua desordem engraçada e rir sem sentir o ventinho do teu sorriso no canto direito da minha nuca ao me acompanhar. Sentar em um café e ver como o teu rosto tem uma nuance bonito quando o sol pega ele nesse ângulo assim meio pro lado. Seu sorrisinho charmoso fechando a boca pro lado e sorrindo com o nariz. Os músculos do teu rosto inteiro se movem proporcionalmente, e a tua testa franze acompanhada de um olhar pedindo carinho, que desarma qualquer outro compromisso. E eu quero congelar na minha melhor fotografia e ter pra sempre um pedido teu no móvel ao lado da minha cama. Quero os teus enganos, e não vou cansar de querer até eles serem todos meus. Quero rir do teu jeito de falar infantíl pra me mostrar o quanto é singelo a sensação da nossa presença. Sentir teu olhar falando sozinho, todo particular, sem nenhum medo do meu não estar participando da conversa, pois não faz diferença, não é o teu ego, é teu coração, eu sei, eu vejo. É como aquela vez, olhando você cair desastrada do canto da cama e rir achando que nada no mundo pode competir com aquilo, nenhuma luz de velas, nenhum pôr do sol na praia, nenhuma palavra, grito, risada ou sussurro. Olhar as primeiras letras do meu nome cravadas nas tuas costas, num adeus desesperado, rasurado. Me ver indo embora e as minhas iníciais ficando pra sempre na tua pele e mergulhar nelas toda vez que lembrar de você indo e o telefone não tocando, e eu não olhando, não esperando, não vendo nossa casa, carro, filhos, piquenique de domingo, zoológico,criança lambuzada de sorvete, alguém surtando, cobertor quentinho com vários pezinhos pequenos roçando nos nossos. Tudo isso que sempre sonhamos,falamos, preso em 2 inícias tatuadas em uma costela, em um tornozelo, em uma alma. Poise, me sinto feliz por não ser neurótica, por esperar tudo explodir por dentro, calada, anestesiada. Bem-vindo amanhecer. Seja você bem viva, enquanto eu existir, seja onde for.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Enlouquecendo mais do que deveria


A solidão chega e eu tento me acomodar melhor no sofá. Me cubro dos pés a cabeça na esperança que a minha capa invisível me proteja de mim mesma, de você, do mundo, dos telefonemas, das atualizações na internet, das tuas fotos. Eu quero você pra mim, mas preciso de espaço pra não depender só do teu amor, quero tuas frases e gestos românticos, mas morro de medo de te ligar, porque não vou saber o que fazer se não ouvir depois que já quero tanto. Mas se eu ouvir de fato, vou ter ganho você e querer bater a cabeça na parede, porque vou te amar desesperadamente e vai doer pra caramba. A porra do medo do futuro vai doer no meu corpo inteiro. Vou beijar o travesseiro enquanto você não chega, e vou querer me ter de volta porque descubro que já estou completamente sua e não quero ser sua, porque significará que não sou mais minha, e eu sou o meu único porto realmente seguro. Eu não vou saber o que você pretende ao me amar, e nem sei se eu vou te amar pra sempre, e caso eu não te ame pra sempre, perdi um tempo filho da mãe beijando paredes com saudades de alguém que não era nem o amor da minha vida. Afinal como eu vou saber que você não vai mudar, me decepcionar. E como eu vou saber se é isso sem me deixar completamente vulnerável pra me estrepar inteira e ser esmagada por um trator de sentimentos. Se essa capa funcionar você não vai me encontrar, nem meus CDs escondidos da Bethânia, que eu me recuso a ouvir agora só pra não pensar melhor em você a cada palavra “malditamente” enfeitiçada que vai me fazer te querer mais e ter mais medo de não te ter. Eu que não queria ficar ocioso, falhar, nem chorar, de repente me vejo acordando cedo pra tomar café. Ainda acho acordar cedo uma merda. Mas quero ter mais tempo pra pensar em você e não quero desperdiçar um minuto dos meus sorrisos insistentes, nem minha asfixia de músicas imoralmente melosas que a um tempinho atrás passavam despercebidas por mim. Ainda acho que romantizar um “me passa o sal”, ou um “oi, como você está?” ou mesmo uma ligação inesperada, é desnecessário demais, mas de repente aqui estou eu deitada no sofá embrulhada na minha capa protetora do mundo certinho, da grama sempre mais verde do vizinho, do vento que não desregula, do pai que se agacha pra abraçar o filho na entrada de casa, do carro novo do seu amigo, dos novos cortes de cabelo da moda, daquele cheiro bom de quem acabou de sair do banho, ouvindo Norah Jones, tentando ser o meu próprio mundo dentro de você. O tempo gasto fingindo que os CDs melosos não estavam ali, e que se estavam por alguma razão eu era mais forte que qualquer sentimento incontrolável, pra que? Parece mesmo que não tem como fugir, você tenta mais só o que pode fazer é ouvir as porras das músicas melosas. Eu mato o filho da puta que ganha dinheiro incentivando o suicídio emocional alheio. Ainda to deitada no sofá, ainda sorrio bobo, ainda entro em um transe oriental com as benditas, ainda romantizo coisas aparentemente sem sentido. Faço planos e espero, espero levar um tombo e cair de cara na sarjeta, ou então que você me tire debaixo da minha capa e me traga de volta ao mundo suicida, totalmente admissível quando é ao seu lado, e me sirva um chocolate quentinho na varanda fria no clarear da manhã enquanto planeja me amar para sempre.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Você quer amar?




Eu não vim ao mundo para refazer a história. Eu falo com as mãos erradas. As minhas palavras e o movimento das mãos se desencontram entre o frio no estômago e o nervosismo de fingir que sabe o que vai dizer logo em seguida, mas esqueceu de avisar aos gestos. Não quero o tal casulo, quero o tal gesto. Não quero te ajudar a não pensar, eu quero que você esteja pronta, pronta para sincronizar seu pensamento com o meu. É como quando alguém tosse atrás de você na escada rolante e você olha pro lado, olha pro outro, tenta não pensar no fato enquanto prende a respiração e imagina seu cabelo cheio de germes alheios. Tudo bem que ele já estava meio sujo mesmo, mas era a minha sujeira entende, não quero ter que limpar do meu ser a sujeira alheia, quero que alguém se suje comigo, que você se suje comigo, pule de cabeça na nossa própria lama, talvez ela seja medicinal, pensa. Porque vai ser nossa, só e basta pra mim. Não quero a sujeira dos outros no meu calcanhar. Quero um banho ao teu lado, sair do banheiro pra vida, enroladas na mesma toalha, com frio e pensando num chocolate quente, as paixões passando por nos aqui, novas e lavadas, prontas para chafurdar nas flores. Eu acho que pra amar você precisa tomar banho, banho de alma e tudo. Se pra isso tiver que vomitar em um segundo encontro, que seja então. Vomita, mas sobe em cima do trem em movimento pra secar o coração e viver intensamente. Toca na minha alma, como se fosse o musical da Björk, como se estivéssemos a um fio dos trilhos, mas tão naturalmente leves que assim entendemos que não precisamos ter medo, mesmo que outros fiquem apreensivos. E se você ousar me amar? Se esquecer como não aconteceu e criar uma página em branco. Então leva um vinho e as boas intenções. E eu lavo a vontade confusa, tiro a casca, mordo, e se o dente não quebrar,como a maçã do filme que vimos juntas, se não tiver nada, se o beijo não ficar duro, se eu ousar emprestar do amor, se eu parar de falar tanto "se", se você me beijar com toda a sua gana de me viver pra que eu pare de falar tantos se’s e te olhe profundamente depois, e todas as cruzadas passassem pelo meu estômago e meu coração apertasse pelo teu abraço. Pode crer que realmente o coração tambem iria junto.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Meu pequeno coração imundiçado




Eu quero uma carona para o marco zero dos desencontros. O QG dos sentimentos vazios, errôneos, intensos, preguiçosos, medrosos, confusos. De onde eles sincronizadamente se varrem como num ritual, possivelmente até em ordem alfabética. Dizem as más línguas que eles rondam encontros ao redor de fondues perto de lareiras, ao redor de copos de whiskys em boates, de vinhos em restaurantes caros, para no final de camas baratas, de olhares comprometidos, não estarem de fato em lugar nenhum. As paixões não param, o tempo corre, e você passa voando pelos dois. Antes, na época dos fins de tarde cheios de brisa, conversas agradáveis e nenhum medo de ser feliz, eles cortavam caminho pela minha rua, hoje moro em apartamento, mas lembro que brincava na porta de casa quando vi um deles passar pela primeira vez. Um sentimento limpinho, bem calçado, com os cabelos penteados, sedosos e um olhar seco e perdido, carregava um par de sapatilhas, não correu, andou olhando pro chão. Eu pulava elástico e parei para ver o amor passar. O amor não cantava, dançava balé, mas esperei uma serenata que nunca existiría, em todas as tardes que se seguiram, com aquele elástico meio imundiçado na mão direita, com aquele coração meio imundiçado no meu peito esquerdo. Aos olhos do mundo e aos meus também - por amar uma bailarina. - Certa vez, na brincadeirinha intencional das frutas, com o olho não totalmente coberto, fiz cair sobre ela à salada mista, logicamente não deu certo, mesmo que desse, nem eu sabía de fato se queria realmente aquilo. Meu impulso foi o mais perto que cheguei do amor que morava no final da minha rua, e passou a dormir no meu pensamento confuso depois daquele dia, em todas as noites de que me lembro. Passava também pela minha janela quase toda manhã. Hoje não tenho mais medo desse coração que não sabia se era meu, nem se era de fato como o elástico. Não olho mais dentro da barca de sushi, pra disfarçar o olhar na mesa ao lado, nem me importo com a vulnerabilidade de festas noturnas, nem com a maldade em olhares de mentes pequenas que tentam devorar a nossa paz interior. Não paro de beber whisky porque é quando encontro um sotaque Francês ao longe e adoro ouvir música Francesa, não sei explicar, mais me sinto tão leve quanto a docilidade do som que ecôa na pronúncia. Ainda penso em comprar um radinho de pilha e sentar na janela pra ver o próximo amor subir a minha rua, ver os sentimentos sofridos que pegam atalhos, vendo tudo tomar seu lugar depois que o medo e a ignorância passar.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Do alto do meu mundo colorido


Às vezes parece que todo mundo me abandonou. Como assim? Todos me amavam tanto ontem. Não entendo. Juro que só fui ali fazer um café. Parece até um complô. É um grande, insensível, perverso e desnaturado complô entre pessoas que nem sequer sabem da existência uma das outras. A multidão anda sorrindo, não sei bem do que, não me convidaram, e saem sem olhar pra trás, sem dar nenhuma explicação, como se eu nunca merecesse ou precisasse mesmo. E talvez nunca saiba se isso é bom ou ruim. Bom, meu amigos viraram uma organização secreta,tão secreta que não sei onde estão agora. Logo hoje que to meio desorientada. Mas é justo nessas horas de drama excessivo e solidão inexplicável, que de repente alguém especial cai de paraquedas na sua frente. Eu deixo o chão de lado e miro meu olhar. Abro uma janela no canto do coração, pode ser pra sempre ou só essa noite. Enquanto eu penso a rua enche, os carros voltam para casa, a lua ilumina ilusões e eu admiro um gesto, uma voz baixinha, uma poesia dentro de uma caixinha de bailarina, e me guardo embaixo de um olhar preso em uma fotografia. Deixo a noite seguir seus próprios planos. As pessoas seguem para suas festas idênticas e de cima do meu mundo eu procuro ela. Não sei como ela é de pijama, não sei se da bom dia ou se acorda de mau humor, se casa, se comida, se vendeu os sonhos ou emprestou a juros, se posso serrar a grade que os cerca, se tem um computador na garantia, cheio de fotos que desconheço, se um dia serão conhecidas, se ela vive bem com a solidão, ou se ela não sabe o que é a solidão, se ela vale à pena amar, se eu preciso ser muito mais que um coração aberto, torcendo pra ela não ser metade da perfeição que sempre idealizo de alguém no primeiro encontro, torcendo pra ela falar besteira e rir de si própria, pedir pizza e comer com a mão, dar pulos de alegria descompassada por uma coisa boba, sem perder a sua facilidade em ser autêntica, madura, inteligente e sofisticada. Me puxar pela mão e me fazer sentir o vento no rosto e sentir a sua mão e o seu rosto, e o seu coração acelerar junto com sua respiração, tão perto que a escuto falar, a escuto querer. E que toda a perfeição chata que eu idealizei vá por água abaixo. E mergulho na multidão contente e passo por baixo de pernas. Eu desconheço a sua historia mais reconheço o brilho único do olhar bicolor. Ela chega e não diz nada do que eu imaginei, ela me liga e eu desligo intrigada e mesmo ainda vendo tudo desfocado, a Alice que vive em mim e corroe meu ventre, trabalha e trabalha. Meu coração multifuncional me fala de uma realidade, onde você empresta amor a juros e paga as contas do coração no 24 horas. Mas que se dane. Só o Wood Allen se importa com isso. Eu vejo um furacão. Meu relógio atemporal atrasado como sempre, me faz lembrar do meu paÍs das maravilhas. Nele vejo o amor entre dois corpos idênticos, é tão irreal e tão real que queima. Espero você chegar na ventânia e eu abro meus braços dentro dela e me deixo rodopiar. Você que vem no furacão, te espero no alto do meu mundo.

sábado, 18 de setembro de 2010

A última placa cortante



As lojas fecham, a noite cai... O dia começou colorido e terminou acinzentado. Lágrimas de sangue pisado e coração pisado, e uma ligação voa. Um estrondo e já é muito tarde para comprar cigarro. Me agarro a uma lembrança boa, me agarro a um copo de cerveja, em tudo o que não existe e em mais nada. E se esse texto ficar ruim, a minha noite vai ficar pior, porque nem nele vou poder me agarrar. Estou no nono andar e me sinto sem o chão. Nem a lua consigo ver da janela, provavelmente ela deve ter tido mais o que fazer. O moço do quiosque do outro lado da avenida, deve estar vendo filme agora com os pés inchados em cima da poltrona, e meu sangue quente deu meia volta de mãos abanando. Não tem cigarro, não tem quiosque, nem bêbados fora da idade de estarem bêbados batendo ponto. Tem somente o canto do sofá da sala do meu amigo e uma Black Music tocando no notebook que ilumina a sala. Quero dançar em uma boate, cheia de rancor e vontade de não estar em lugar nenhum. Eu não pedi nada, mas você bateu a cabeça no fundo, e algo ficou roxo entre meu coração e a alma. Cercada de quadros antigos, estante de livros, de filmes de arte e um vento frio entrando pela janela do nono andar, passando pelos dois e chegando a mim. Lembro que quero te devolver o livro que você me emprestou, da menina que fugia da morte enquanto roubava livros, não sei mais nada sobre ela. Fugir da vida é bem mais louco e irreal, por isso ainda acho que ela estava no lucro. Mas preciso devolvê-lo talvez sem aprender a fugir de livros, nem roubar a morte, que a essa altura já deve ter dado meia volta ao ver a placa de um endereço temporariamente desativado. Atravesso a rua com o martelo e os pregos que sobraram em minhas mãos. Cansei de cartazes, cansei, esse é o último aviso. Sento na beira da praia, o vento corta, o frio corta, a noite corta, mas porque só o que sai da tua intimidade cortante me dói?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Bela Merda



Sabe aqueles dias em que você acorda e pensa: “Que merda”. Porque justo ontem você ficou em casa?! Se você soubesse! Que merda achar que é uma merda você não ser adivinha. De repente você lembra da merda que disse, e da graças a Deus pelo sossego do sofá macio no sábado a noite. Mais ai você pensa no frio e na pipoca, e lembra que foi uma merda consumi-los sozinha apesar de ter adorado o filme. Frio não faz muito sentido quando se esta só você e um balde de pipoca no sofá da sala. Dá licença. Chegou na hora errada, volte talvez no próximo final de semana, porque por via das dúvidas, vou estar mesmo naquele aniversário. Não se preocupe, tenho o seu contato, te ligo qualquer mudança de planos. É uma merda ainda faltar mais de dois meses para o fim do ano. Foi uma merda fazer uma mancha preta em cima de uma pedra, só para satisfazer os egos afora. A pedra é importante porra. A pedra não deixa de ser pedra por um capricho. A pedra é a pedra e pronto, deu pra entender? Deixa a pedra quieta! Ninguém mexe mais nessa porra de pedra. É uma merda acordar de ovo virado sem motivo aparente. Você procura e acha. A merda é quando você nem procura. Mais que merda é essa afinal que todo mundo tem um ex amor. De repente você virou só o passado irritante na vida de uma terceira que nem sequer te conhece. Ou alguém que você talvez nunca viu, se tornou o passado irritante da vida de alguém que há pouco tempo você nem sabia que existia. Enquanto isso as pedras estão por ai, sempre trocando de sapatos. Se você nunca foi, um dia vai ser. Merda, é quando você é a dona do sapato. Eu sei.