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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Você quer amar?




Eu não vim ao mundo para refazer a história. Eu falo com as mãos erradas. As minhas palavras e o movimento das mãos se desencontram entre o frio no estômago e o nervosismo de fingir que sabe o que vai dizer logo em seguida, mas esqueceu de avisar aos gestos. Não quero o tal casulo, quero o tal gesto. Não quero te ajudar a não pensar, eu quero que você esteja pronta, pronta para sincronizar seu pensamento com o meu. É como quando alguém tosse atrás de você na escada rolante e você olha pro lado, olha pro outro, tenta não pensar no fato enquanto prende a respiração e imagina seu cabelo cheio de germes alheios. Tudo bem que ele já estava meio sujo mesmo, mas era a minha sujeira entende, não quero ter que limpar do meu ser a sujeira alheia, quero que alguém se suje comigo, que você se suje comigo, pule de cabeça na nossa própria lama, talvez ela seja medicinal, pensa. Porque vai ser nossa, só e basta pra mim. Não quero a sujeira dos outros no meu calcanhar. Quero um banho ao teu lado, sair do banheiro pra vida, enroladas na mesma toalha, com frio e pensando num chocolate quente, as paixões passando por nos aqui, novas e lavadas, prontas para chafurdar nas flores. Eu acho que pra amar você precisa tomar banho, banho de alma e tudo. Se pra isso tiver que vomitar em um segundo encontro, que seja então. Vomita, mas sobe em cima do trem em movimento pra secar o coração e viver intensamente. Toca na minha alma, como se fosse o musical da Björk, como se estivéssemos a um fio dos trilhos, mas tão naturalmente leves que assim entendemos que não precisamos ter medo, mesmo que outros fiquem apreensivos. E se você ousar me amar? Se esquecer como não aconteceu e criar uma página em branco. Então leva um vinho e as boas intenções. E eu lavo a vontade confusa, tiro a casca, mordo, e se o dente não quebrar,como a maçã do filme que vimos juntas, se não tiver nada, se o beijo não ficar duro, se eu ousar emprestar do amor, se eu parar de falar tanto "se", se você me beijar com toda a sua gana de me viver pra que eu pare de falar tantos se’s e te olhe profundamente depois, e todas as cruzadas passassem pelo meu estômago e meu coração apertasse pelo teu abraço. Pode crer que realmente o coração tambem iria junto.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Meu pequeno coração imundiçado




Eu quero uma carona para o marco zero dos desencontros. O QG dos sentimentos vazios, errôneos, intensos, preguiçosos, medrosos, confusos. De onde eles sincronizadamente se varrem como num ritual, possivelmente até em ordem alfabética. Dizem as más línguas que eles rondam encontros ao redor de fondues perto de lareiras, ao redor de copos de whiskys em boates, de vinhos em restaurantes caros, para no final de camas baratas, de olhares comprometidos, não estarem de fato em lugar nenhum. As paixões não param, o tempo corre, e você passa voando pelos dois. Antes, na época dos fins de tarde cheios de brisa, conversas agradáveis e nenhum medo de ser feliz, eles cortavam caminho pela minha rua, hoje moro em apartamento, mas lembro que brincava na porta de casa quando vi um deles passar pela primeira vez. Um sentimento limpinho, bem calçado, com os cabelos penteados, sedosos e um olhar seco e perdido, carregava um par de sapatilhas, não correu, andou olhando pro chão. Eu pulava elástico e parei para ver o amor passar. O amor não cantava, dançava balé, mas esperei uma serenata que nunca existiría, em todas as tardes que se seguiram, com aquele elástico meio imundiçado na mão direita, com aquele coração meio imundiçado no meu peito esquerdo. Aos olhos do mundo e aos meus também - por amar uma bailarina. - Certa vez, na brincadeirinha intencional das frutas, com o olho não totalmente coberto, fiz cair sobre ela à salada mista, logicamente não deu certo, mesmo que desse, nem eu sabía de fato se queria realmente aquilo. Meu impulso foi o mais perto que cheguei do amor que morava no final da minha rua, e passou a dormir no meu pensamento confuso depois daquele dia, em todas as noites de que me lembro. Passava também pela minha janela quase toda manhã. Hoje não tenho mais medo desse coração que não sabia se era meu, nem se era de fato como o elástico. Não olho mais dentro da barca de sushi, pra disfarçar o olhar na mesa ao lado, nem me importo com a vulnerabilidade de festas noturnas, nem com a maldade em olhares de mentes pequenas que tentam devorar a nossa paz interior. Não paro de beber whisky porque é quando encontro um sotaque Francês ao longe e adoro ouvir música Francesa, não sei explicar, mais me sinto tão leve quanto a docilidade do som que ecôa na pronúncia. Ainda penso em comprar um radinho de pilha e sentar na janela pra ver o próximo amor subir a minha rua, ver os sentimentos sofridos que pegam atalhos, vendo tudo tomar seu lugar depois que o medo e a ignorância passar.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Do alto do meu mundo colorido


Às vezes parece que todo mundo me abandonou. Como assim? Todos me amavam tanto ontem. Não entendo. Juro que só fui ali fazer um café. Parece até um complô. É um grande, insensível, perverso e desnaturado complô entre pessoas que nem sequer sabem da existência uma das outras. A multidão anda sorrindo, não sei bem do que, não me convidaram, e saem sem olhar pra trás, sem dar nenhuma explicação, como se eu nunca merecesse ou precisasse mesmo. E talvez nunca saiba se isso é bom ou ruim. Bom, meu amigos viraram uma organização secreta,tão secreta que não sei onde estão agora. Logo hoje que to meio desorientada. Mas é justo nessas horas de drama excessivo e solidão inexplicável, que de repente alguém especial cai de paraquedas na sua frente. Eu deixo o chão de lado e miro meu olhar. Abro uma janela no canto do coração, pode ser pra sempre ou só essa noite. Enquanto eu penso a rua enche, os carros voltam para casa, a lua ilumina ilusões e eu admiro um gesto, uma voz baixinha, uma poesia dentro de uma caixinha de bailarina, e me guardo embaixo de um olhar preso em uma fotografia. Deixo a noite seguir seus próprios planos. As pessoas seguem para suas festas idênticas e de cima do meu mundo eu procuro ela. Não sei como ela é de pijama, não sei se da bom dia ou se acorda de mau humor, se casa, se comida, se vendeu os sonhos ou emprestou a juros, se posso serrar a grade que os cerca, se tem um computador na garantia, cheio de fotos que desconheço, se um dia serão conhecidas, se ela vive bem com a solidão, ou se ela não sabe o que é a solidão, se ela vale à pena amar, se eu preciso ser muito mais que um coração aberto, torcendo pra ela não ser metade da perfeição que sempre idealizo de alguém no primeiro encontro, torcendo pra ela falar besteira e rir de si própria, pedir pizza e comer com a mão, dar pulos de alegria descompassada por uma coisa boba, sem perder a sua facilidade em ser autêntica, madura, inteligente e sofisticada. Me puxar pela mão e me fazer sentir o vento no rosto e sentir a sua mão e o seu rosto, e o seu coração acelerar junto com sua respiração, tão perto que a escuto falar, a escuto querer. E que toda a perfeição chata que eu idealizei vá por água abaixo. E mergulho na multidão contente e passo por baixo de pernas. Eu desconheço a sua historia mais reconheço o brilho único do olhar bicolor. Ela chega e não diz nada do que eu imaginei, ela me liga e eu desligo intrigada e mesmo ainda vendo tudo desfocado, a Alice que vive em mim e corroe meu ventre, trabalha e trabalha. Meu coração multifuncional me fala de uma realidade, onde você empresta amor a juros e paga as contas do coração no 24 horas. Mas que se dane. Só o Wood Allen se importa com isso. Eu vejo um furacão. Meu relógio atemporal atrasado como sempre, me faz lembrar do meu paÍs das maravilhas. Nele vejo o amor entre dois corpos idênticos, é tão irreal e tão real que queima. Espero você chegar na ventânia e eu abro meus braços dentro dela e me deixo rodopiar. Você que vem no furacão, te espero no alto do meu mundo.

sábado, 18 de setembro de 2010

A última placa cortante



As lojas fecham, a noite cai... O dia começou colorido e terminou acinzentado. Lágrimas de sangue pisado e coração pisado, e uma ligação voa. Um estrondo e já é muito tarde para comprar cigarro. Me agarro a uma lembrança boa, me agarro a um copo de cerveja, em tudo o que não existe e em mais nada. E se esse texto ficar ruim, a minha noite vai ficar pior, porque nem nele vou poder me agarrar. Estou no nono andar e me sinto sem o chão. Nem a lua consigo ver da janela, provavelmente ela deve ter tido mais o que fazer. O moço do quiosque do outro lado da avenida, deve estar vendo filme agora com os pés inchados em cima da poltrona, e meu sangue quente deu meia volta de mãos abanando. Não tem cigarro, não tem quiosque, nem bêbados fora da idade de estarem bêbados batendo ponto. Tem somente o canto do sofá da sala do meu amigo e uma Black Music tocando no notebook que ilumina a sala. Quero dançar em uma boate, cheia de rancor e vontade de não estar em lugar nenhum. Eu não pedi nada, mas você bateu a cabeça no fundo, e algo ficou roxo entre meu coração e a alma. Cercada de quadros antigos, estante de livros, de filmes de arte e um vento frio entrando pela janela do nono andar, passando pelos dois e chegando a mim. Lembro que quero te devolver o livro que você me emprestou, da menina que fugia da morte enquanto roubava livros, não sei mais nada sobre ela. Fugir da vida é bem mais louco e irreal, por isso ainda acho que ela estava no lucro. Mas preciso devolvê-lo talvez sem aprender a fugir de livros, nem roubar a morte, que a essa altura já deve ter dado meia volta ao ver a placa de um endereço temporariamente desativado. Atravesso a rua com o martelo e os pregos que sobraram em minhas mãos. Cansei de cartazes, cansei, esse é o último aviso. Sento na beira da praia, o vento corta, o frio corta, a noite corta, mas porque só o que sai da tua intimidade cortante me dói?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Bela Merda



Sabe aqueles dias em que você acorda e pensa: “Que merda”. Porque justo ontem você ficou em casa?! Se você soubesse! Que merda achar que é uma merda você não ser adivinha. De repente você lembra da merda que disse, e da graças a Deus pelo sossego do sofá macio no sábado a noite. Mais ai você pensa no frio e na pipoca, e lembra que foi uma merda consumi-los sozinha apesar de ter adorado o filme. Frio não faz muito sentido quando se esta só você e um balde de pipoca no sofá da sala. Dá licença. Chegou na hora errada, volte talvez no próximo final de semana, porque por via das dúvidas, vou estar mesmo naquele aniversário. Não se preocupe, tenho o seu contato, te ligo qualquer mudança de planos. É uma merda ainda faltar mais de dois meses para o fim do ano. Foi uma merda fazer uma mancha preta em cima de uma pedra, só para satisfazer os egos afora. A pedra é importante porra. A pedra não deixa de ser pedra por um capricho. A pedra é a pedra e pronto, deu pra entender? Deixa a pedra quieta! Ninguém mexe mais nessa porra de pedra. É uma merda acordar de ovo virado sem motivo aparente. Você procura e acha. A merda é quando você nem procura. Mais que merda é essa afinal que todo mundo tem um ex amor. De repente você virou só o passado irritante na vida de uma terceira que nem sequer te conhece. Ou alguém que você talvez nunca viu, se tornou o passado irritante da vida de alguém que há pouco tempo você nem sabia que existia. Enquanto isso as pedras estão por ai, sempre trocando de sapatos. Se você nunca foi, um dia vai ser. Merda, é quando você é a dona do sapato. Eu sei.

domingo, 5 de setembro de 2010

Espelho meu, espelho dela



Ela entrou e saiu da minha vida. E entrou de novo. Saiu de madrugada na ponta do pé, teve medo que eu me envolvesse. Eu fingi que dormia e que não vi, tinha medo que ela ficasse. Eu dizia: “Não, ela não, já chega!! Menina doida.Aff! É legal, bonitinha, mas é doida, doidinha da silva, coitada”. É esquisita, todos dizem, todos acham. Até a astrologia, na qual ela é viciada, joga na sua cara a sua esquisitice. "Aquário - o signo dos esquisitos". O porteiro diz "Essa menina é esquisita!" mas sorri e da bom dia, e ela retribui enquanto tenta engolir o café da manhã quase caindo das suas mãos entre livros e pastas, porque pra variar, perdeu a hora. As meninas a olham, não tinham coragem de ser ela; "Deus me livre! É muito esquisitinha, gostamos do fato de sermos fáceis de ler, nos abre portas a cada esquina". O que elas não sabiam, é que ela não queria as portas da esquina, e disso ela sabia bem. As portas pequenas e fáceis não lhe eram muito abertas, pois ela não obedecia aos padrões baratos e comuns, obrigatoriamente necessários para se trabalhar para pessoas triviais e habituais. Ela queria seu próprio castelo, e não queria ganhá-lo na mega sena, ela queria conquistá-lo, pois aprendeu cedo a dar valor as coisas conquistadas por ela mesma. Por isso acorda cedo para escovar os dentes, e me aparece sonolenta no espelho do banheiro todas as manhãs. Ela fala alto, e as vezes ri também. Come com aquela fome que faz todos a volta se perguntarem pra onde raios vai tanta comida afinal. Acho que ela é magra de ruim. Até seu metabolismo é esquisito. Ela põe um pouquinho de cabelo atrás da orelha, e ri enquanto esta brigando e deveria estar serio. As vezes sem necessidade, quando viu já coçou a nuca, mal sinal, ela vai se zangar. Se expõe demais, doa-se muito fácil a um sorriso transparente, e as vezes, aos não transparentes também. As vezes não age, apenas sorri, vai para o meio da pista e deixa acontecer a obra do acaso. As vezes tão segura e leve, age e pronto, mas sai antes do despertador tocar. As vezes, só para buscar o café da manhã, as vezes, para procurar onde deixou a cabeça, bem longe dali, deduz. Ela nunca sabe, quem dirá eu. Ela até tenta fazer a linha blasé, séria, recatada e misteriosa, mas quando viu já esta rachando de rir de alguma piada boba, e que as vezes nem era uma piada. Mas pior que isso, é quando ela ergue a sobrancelha direita e despeja suas teorias de mesa-de-bar. Chata, chata, chata!!! Há! Mas ela nunca sabe tudo e não tem vergonha disso. -Não conheço, o que é?- As vezes ela tem umas tiradas que ninguém entende, as vezes nem ela mesma entende. Ela se encanta com o mundo e suas minúcias a ponto de dançar sem música, ou seja, só pode ser doida. Os momentos em que não se sente em seu habitat natural, sai à francesa, deixa por minha conta, ela sabe que sempre dou conta. Ela esta em mim, e eu estou nela. Por várias vezes quero domesticá-la, domá-la, ensina-la a ser mais durona. Mas do que adianta, se meu próprio coração é vulnerável. Quero que ela seja menos mística, mas categórica, seletiva e inalcançável, porque sei que assim as pessoas vão querê-la mais. Pois a verdade é que sempre se interessam por quem não lhes da muita atenção. Parece algo haver com superação, ego, em se fazer merecer. Mais quando chego, lá esta ela, abrindo sua vida para o primeiro sorriso que lhe abriram, cheia de sorrisos. Lá esta ela na frente da televisão, escrevendo àquelas receitas da Ana Maria Braga em seu caderninho, e que guarda pra fazer em dias especiais, porque acordou sem nenhum motivo aparente, super animada e disposta. Ela sabe a discografia de Chico Buarque de trás para frente, mas dança Lady Gaga até o chão e até a segue no twitter. Apesar de tudo as vezes acorda se sentindo a mais banal da sua espécie, mesmo Amelie Poulain sendo o seu alter ego. Uma vez ela comprou algemas em um sexy shop, e nesse dia se sentiu a mulher mais descolada e moderna do mundo. Ela ri até chorar com “A era do gelo” e vai do riso ao choro com “Procurando Nemo” e se sente feliz e privilegiada por ainda poder ser tão boba. Ela sempre chega depois, vai nas boates nos dias errados, liga para quem não deveria, deixa de ligar para quem deveria. À muito não liga para ninguém, apesar de ainda aguardar a sua princesa encantada com uma rosa na mão. Ela gosta do amarelado das fotografias, mais odeia roupas de cor amalera, ela acha brega, nem ela sabe porque. Ela não é nada interessante, ela só é complicada, o que a primeira vista pode parecer um estilo cult, mas no fim das contas, é só bobeira e esquisitice mesmo. E enquanto estou aqui cercada por essa bolha que me protege do mundo primitivo e preconceituoso, a invejo. Ela esta lá fora, pulando e saltitando de um lado para o outro, tentando agarrar a vida que acabára de pousar em uma flor para se alimentar, e ela a observa com um sorriso atencioso. E eu a vejo, ela sou eu.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A garota que traia



Ela era a garota que não conseguia ser fiel e eu queria conhecer o mundo dela. - Eu não sei não trair - me disse no intervalo entre uma música e outra. Ela e seu violão eram inseparáveis. Ela tocou para mim na porta da sua casa, quase todas as noites por quase um ano. Ela tinha uma voz sexual, e as caras e bocas que fazia quando cantava, eram dignas da fogueira da inquisição. Ela me despia com os olhos entre uma e outra canção. Ela não se intimidava com absolutamente ninguém e me olhava com ganância, sede e fome. Ela fez sexo comigo várias vezes ali naquela porta. Eu sei! Ela não me tocava, nem tentava! E isso me enlouquecia. Por mais estranho que pudesse parecer, ela tinha seu próprio jogo de sedução. Ela me contava histórias do seu mundo de meninas, e eu via todo ele no seu cheiro, quando a abraçava e seus cabelos roçavam meu nariz. O medo meio besta que sempre tive de pôr em prática o que já havia me deixado noites em claro, agora tinha um foco: Aquele mundo. E ela, a minha porta de entrada. Era isso. Da minha parte, eu só queria matar minha curiosidade cheia de fantasias, e da parte dela, ela só queria matar minha curiosidade cheia de fantasias. E assim a gente se entendia. E assim nós seguíamos o jogo. Ela nunca ficava só em casa. Naquele horário em que as moças educadas ainda podiam estar nas casas alheias, sentávamos no seu sofá, uma em cada canto, de frente pra outra. E em uma profunda, longa e ininterrupta olhada, íamos perdendo as roupas. Eu dizia o que queria com o olhar e ela obedecia. As luzes se apagavam num complô cadenciado. Quando via, tentava me segurar numa cama qualquer e ela me puxava para debaixo dela. Eu entrava na fila do supermercado e de repente estava lá de novo. Na sala, no sofá, na cama, no tapete, no chão, calculando a distância entre o seu umbigo e o meu, antes e depois da minha língua secar. O sexo com ela era o mais perfeito, ritmado, paciente, avassalador e incansável. Tudo acontecia no chão do tapete, ou seria no tapete do chão... Nem sei qual a concordância, e quem se importa com a ordem. Afinal não conseguia pensar em nada mesmo que não fosse o seu umbigo. Aliás!Conseguia sim... Mas o barulho do chuveiro desligando desvia nossos olhares, e fazemos aquela propícia cara blasé enquanto alguém passa de toalha. Mas enfim! Se um dia houvéssemos chegado às vias de fato, teria estragado tudo.

sábado, 28 de agosto de 2010

“E assim eu me apresento”


Um olhar, um desejo, um medo. A reflexão mais nostálgica de uma xícara e um cinzeiro numa noite de insônia. Uma brisa, e tudo o que é novo me invade. É o meu sangue que corre, é o meu coração que pulsa, numa roda, num bar, em qualquer lugar da boêmia, pura ou com gelo. É a certeza que tenho de todas as minhas incertezas camufladas que me formam e me dão sentido. Sem isso não sou, sem isso não quero, sem isso não tem porque. É o vício que nasceu comigo. Eu não sei quanto amor me foi jogado placenta adentro, mas nasci transbordando. Hoje sou rio, cachoeira, enchente, enxurrada que precisa sempre desaguar. Não adianta! Sem a brisa leve do vento tocando o meu rosto, enquanto fecho os olhos e enxergo a minha alma. Sem o chá de outrora já frio em cima da escrivaninha e todas aquelas razões pra minha insanidade, loucura que me alimenta. Sem o meu coração testando toda a sua resistência...-Eu não sei pra que sirvo.-
O maldito amor.
O Bendito amor.
O escasso, inalcançável e utópico amor
-É todo meu!-

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Aquele vento no litoral

(foto-autor desconhecido)

Quando a música tocou a primeira vez eu te amava. Você ia para longe de mim, e ela fez todo o sentido com todos os clichês que existem em um coração apaixonado. E o medo de um dia te perder, me fez chorar cada letra que já era nossa. E eu sorri a tua presença.
Quando a música tocou a segunda vez, você já estava longe. Aquela distância foi talvez a melhor parte do nosso amor. A mais segura. A parte em que dormíamos com a certeza uma da outra. Em que éramos só uma voz ao telefone todas as infinitas madrugadas. E eu chorei a tua ausência em todas elas. E eu esperava.
Quando a música tocou a terceira vez, tudo era onda violenta no mar, uma ampulheta desregulada. Tudo sangrava, tudo chovia, tudo era um vento forte em uma eterna tarde a beira mar. O nosso sonho já não era nosso, era alguma coisa inventada que já não nos pertencia. Estragamos cada canto,cada fresta, cada cômodo do nosso apartamento com todas as nossas palavras cortantes, enquanto as estrofes se desprendiam uma a uma. E eu? Eu me procurava.
Quando a música tocou novamente, perdi as contas. Você não era mais meu sono bom. Você agora era a minha embriaguês. Não sei por onde você andava, quando não estava na minha insônia. Mais sei que a tal canção estava em cada gole, no cheiro do álcool, no peso do gelo, no fundo onde te encontrava e fingia não te procurar. Eu chorei a sua ausência, eu chorei a nossa ausência, em cada palavra, e mesmo o mar me dizendo que a vida continua - Eu morria!-
Quando a música tocou foi agora a pouco, eu estava no banho. Eu não te via mais no reflexo do box, não cheirava mais a você a minha toalha, e pela primeira vez eu não tive medo de escutá-la até o fim. Não era mais dor, era alguma coisa com um nome novo, era outra vez alguma coisa boa, uma vontade de me cuidar, uma vontade que você estivesse bem. O coração desprendeu, e eu sorri de leve enquanto lavava os cabelos. Sorri não querer mais chorar ao ouvi-la, sorri não cheirar mais a lágrimas secas o meu travesseiro. E lembrei! O plano era ficarmos bem.

sábado, 21 de agosto de 2010

A lua cheia de “se”


Se você me visse agora, encostada na minha escrivaninha pronta para dormir, mas tendo isso como último plano. Se você me observasse segurando a xícara do café que eu bebo devagar, na sua espera. E você simplesmente não falasse nada e só me amasse intensamente. Se ao invés dessa tragada eu pudesse te tragar com o olhar nesse momento. Eu entenderia porque anoitece, porque a fumaça tem som de blues. Agora eu entendo a madrugada, é pra isso que ela serve, para que eu possa sorrir pra essa lua cheia tentando se esconder atrás do teu olhar, enquanto você saboreia o meu silêncio com a devoção de quem sabe o que é amar. Se você pudesse tocar os meus cabelos, se você chegasse mansinha e pegasse a minha mão, eu não precisaria te contar meus segredos, meu mistério te bastaria. Se eu sentasse a tua mesa e você me oferecesse um drink, enxugasse minha lágrima com o canto do indicador, me falasse dos teus planos, me colocasse no teu colo, o brilho do teu sorriso formaria um arco-íris no breu do meu. Se a tua estrada fosse outra que não a minha, você odiaria todas as minhas loucuras e eu te botaria pra correr. Se você não tivesse nascido, eu teria um chamado para o celibato. Se você não estivesse me procurando, eu já teria filhos, um cachorro e uma história.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Minha Estrela pequenina


Menina!Para de esbarrar em mim com o corpo todo suado como se fosse sem querer,todas as vezes que eu passo do lado da quadra espaçosa do teu sorriso. E eu paro de me exibir pra você quando to pulando elástico de frente pro seu campeonato de cartas marcadas. Não me olhe como se eu fosse só a primeira amostra do que a vida te reserva. Quando você ainda nem consegue perceber, que o que a vida te reserva é tudo o que você já sabe e tem medo de ter certeza. E eu paro de te olhar como se tudo o que eu desejo estivesse por ai, ainda a tua procura. Você ainda nem sabe quem é de fato,mas experimenta me pagar um milk-shake com as moedinhas que você economizou durante a semana, só pra me mostrar que você pode ser muito mais. E eu te dou os milhões de retratos teus, que os meus olhos tiram todas as vezes que te vejo,só para te colecionar, caso ao amanhecer você evapore como um sonho bom. Me deixa subir no teu ombro pra que eu possa ficar tão alta, como quando sinto o toque (sem querer) da tua mão na minha, no corrimão da escada depois que bate o intervalo dessa vida miserável e hipócrita. Quando você parar de fingir que não me ama, não sei se trapacear no pêra, uva, maçã e salada mista, sob olhos de um outro mundo, vai me tirar esse medo que também sinto de me perder num caminho escuro e sem garantia de volta, no percurso entre cada estrela que brilha bem no alto do céu da tua boca. Eu quero ver quando essa mão subornada que finge que tapa o teu olho a cada amanhecer, te deixar ver também quando não for eu, pra que assim eu possa perceber que você escolheu negar o afago de outra mulher. E que quando teus olhos se abriram, na tua cama vazia ainda permanecia o meu cheiro, intacto e guardado. Ai sim!Te entregarei os meus sonhos, embrulhados na fitinha azul que prendia o meu cabelo quando te vi pela primeira vez. E nessa noite me leve a um bom restaurante, trajando o teu melhor sorriso. E dance comigo ao som do jazz a meia luz. E quando um blues começar a tocar , perceba o sinal. E me dê de uma vez aquela estrela guardada na caixinha de jóias, que você foi buscar antes mesmo de me reconhecer. Enquanto eu vagava perdida pelas ilusões da vida. E que você guardou até esse momento embaixo do teu travesseiro, enquanto eu limpava o meu ser até ecoar, de todas as promessas não cumpridas que só serviram pra me fazer ver que ainda não era você, e ficando mais uma vez a espera da tua luz que me faria sentir viva.Porque o simples brilho dos olhos,acenderia o cosmos ao nosso redor e calaria toda promessa vã,secaria toda lágrima de decepção e sararia todos os aranhões que sofri, escalando os muros que me impediam de ver o brilho que escapava do teu travesseiro, e atravessava a tua janela, durante todas essas noites, em que você incansavelmente me esperou entrar pela tua porta, com uma rosa na mão.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Eu já!


Você já amou? Pela beleza do gesto!
Você já mordeu? A maçã com todos os dentes!
Pelo sabor do fruto!
A sua doçura e o seu gosto! Já se perdeu algumas vezes?
Pelo sabor do gesto?



(Texto extraido do filme "Les chansons D'amour")